Num cenário raro, quase paradoxal no futebol português, o Benfica encontra-se numa posição em que o sucesso europeu do FC Porto pode ser decisivo para os seus próprios interesses. A matemática do ranking da UEFA está a aproximar rivais históricos e a criar um inusitado sentimento de “união nacional” entre clubes que, em condições normais, vivem em permanente confronto.
Com Sporting e Benfica novamente mergulhados na realidade do campeonato, após noites europeias de forte impacto emocional, o foco vira-se agora para uma luta interna intensa pelo segundo lugar da Liga Portugal. Separados por apenas três pontos, leões e águias sabem que cada jornada será determinante, sobretudo numa fase em que o primeiro lugar parece cada vez mais distante. Ainda assim, há um plano maior em jogo — e passa pela Europa.
Portugal ocupa atualmente o segundo lugar no ranking anual da UEFA, posição que garante uma vaga extra direta na próxima edição da Liga dos Campeões. Este detalhe muda tudo. Para manter esse lugar privilegiado, é essencial que as equipas portuguesas continuem a somar pontos nas competições europeias. E é aqui que entra o FC Porto.
Fora, neste momento, dos lugares de acesso à Champions via campeonato, o Benfica surge como o clube português mais interessado no sucesso europeu dos dragões. Uma campanha longa — ou mesmo a conquista da Liga Europa — por parte do FC Porto não só é vista como realista, como pode ser decisiva para assegurar esse precioso segundo lugar no ranking. Um cenário que beneficiaria diretamente os encarnados.
Assim, aquilo que durante décadas foi impensável torna-se hoje uma realidade estratégica: benfiquistas a torcerem discretamente por vitórias do FC Porto na Europa. O mesmo raciocínio aplica-se, em maior ou menor grau, a Sporting e Braga, num contexto em que o sucesso coletivo pode render dividendos individuais a médio prazo.
Este momento levanta também uma reflexão mais profunda sobre o futebol português. Num clima menos tóxico e mais competitivo, com estádios mais cheios, melhor organização e maior valorização da qualidade técnica de jogadores e treinadores, os ganhos poderiam ser ainda maiores. A semana europeia positiva deixa no ar a pergunta: e se esta convergência deixasse de ser exceção e passasse a ser parte de uma visão estratégica para o futebol nacional?
Por agora, a rivalidade mantém-se acesa dentro das quatro linhas. Mas, fora delas, o ranking dita as regras — e obriga até os maiores rivais a desejarem o mesmo desfecho europeu.