O apuramento épico do Benfica para o play-off da UEFA Champions League, selado com um golo absolutamente improvável de Anatoliy Trubin nos descontos, correu a Europa e ficará para sempre na memória dos benfiquistas. No entanto, o milagre da Luz não pode — nem deve — servir para apagar aquilo que aconteceu minutos antes e, sobretudo, aquilo que José Mourinho admitiu publicamente após o jogo.
Na conferência de imprensa, o treinador do Benfica revelou que fez as últimas substituições — lançando António Silva e Ivanovic para “fechar a porta” — porque tinha a informação de que a vitória por 3-2 seria suficiente para garantir o apuramento. Essa informação estava errada. E esse é o ponto central do problema.
A realidade é simples e factual: o Benfica precisava de marcar mais um golo para entrar no top-24. As contas já não se alteravam há largos minutos. Não houve “um golo em qualquer lado” que tivesse mudado o cenário no momento das substituições, como Mourinho sugeriu. Desde perto dos 80 minutos que as águias estavam fora dos lugares de apuramento e sabiam — ou deviam saber — que só um golo adicional resolveria a situação.
É aqui que a declaração se torna grave. Não por má fé, mas por aquilo que revela em termos de organização, comunicação e controlo da informação num jogo do mais alto nível competitivo europeu. Num contexto destes, com múltiplos jogos a decorrer em simultâneo, é obrigação da equipa técnica ter uma leitura rigorosa e atualizada do que é necessário para alcançar o objetivo. Errar nesse ponto é falhar no essencial.
O Benfica acabou por se salvar graças a um momento absolutamente excecional e irrepetível. Um guarda-redes a marcar de cabeça no último lance do jogo não é planeamento, é acaso. É épico, sim — mas também é um alerta sério. Se Trubin não sobe, se a bola não entra, hoje estaríamos a falar de uma eliminação histórica causada por um erro de cálculo.
Nada disto apaga o mérito dos jogadores, que deram tudo em campo e protagonizaram uma das grandes noites europeias do clube. Mas liderança também é responsabilidade, sobretudo quando se fala de decisões tomadas no banco. A franqueza de Mourinho ao admitir o erro pode ser vista como honestidade, mas não o torna menos preocupante.
No Benfica, onde a exigência é máxima e cada detalhe conta, este episódio não pode ser varrido para debaixo do tapete pelo entusiasmo do apuramento. Porque da próxima vez, o milagre pode não acontecer. E aí, o preço a pagar pode ser demasiado alto.