O regresso de Rafa ao Benfica, um ano e meio depois de ter recusado a renovação e abandonado a Luz, levanta mais perguntas do que certezas. O internacional português, hoje com 32 anos, prepara-se para voltar ao clube que representou durante oito épocas, deixando para trás números inquestionáveis: 94 golos e 67 assistências. O valor desportivo nunca esteve em causa. A questão é outra.

Rafa saiu no verão de 2024 por decisão própria. Disse não a Rui Costa, virou costas ao projeto e procurou novos desafios fora de Portugal. Agora, regressa, e o Benfica está disposto a investir cerca de cinco milhões de euros para o trazer de volta. É aqui que a lógica começa a falhar — e onde Rui Costa tem de dar explicações claras aos sócios.

É compreensível que Rafa queira voltar. O estrangeiro nem sempre corre bem, há saudades, há arrependimentos e há a vontade de “voltar a casa”. Também é natural que José Mourinho veja no avançado uma mais-valia imediata para um plantel que não escolheu e que precisa de soluções prontas. O futebol vive de resultados e Rafa continua a oferecer rendimento.

O que não é tão fácil de compreender é a posição do Benfica. Há ano e meio, o clube tentou renovar com um jogador que decidiu sair. Hoje, esse mesmo clube paga para o recuperar, assumindo custos elevados num atleta que caminha para os 33 anos e cuja principal arma sempre foi a velocidade. O que mudou entretanto? Essa é a pergunta que exige resposta.

O Benfica é um clube formador, com identidade forte e um discurso histórico assente no compromisso, na camisola e no sentido de pertença. Todos os anos, jovens talentos do Seixal sonham com uma oportunidade na equipa principal. Perante isso, que mensagem passa o regresso de um jogador que escolheu sair quando era peça-chave?

Rui Costa não tem apenas de justificar financeiramente o negócio. Tem de o explicar institucionalmente. Aos sócios, aos adeptos e, sobretudo, internamente. Jogar no Benfica não pode ser visto como uma etapa passageira ou uma porta giratória. Deve ser um objetivo final, não uma alternativa de conforto quando algo corre mal fora.

Nada disto invalida que Rafa possa voltar e ser decisivo. O futebol tem memória curta e vitórias apagam quase tudo. Mas também é verdade que, quando os resultados não aparecem, decisões como esta tornam-se alvos fáceis de crítica. E o Benfica, como sempre, está obrigado a ganhar.

Com Rafa de regresso, a exigência aumenta. Para o jogador. Para o treinador. E, acima de tudo, para Rui Costa, que agora tem o dever de explicar por que razão disse “não” deixou de ser um problema — e passou a ser novamente uma solução.

By Paulo

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